terça-feira, 29 de setembro de 2015

O SAMBA É ALMA, É ESPÍRITO… É CULTURA!


Somos nós, os nossos, não somos eles,  os outros. Caminharemos mais e melhor a partir de nossa própria história. Não se trata, definitivamente, de negar e nem desrespeitar a história do outro.[i] (PNS, 17 anos e dois dias do nascimento de uma ideia)
por Selito SD.
Alma, é isso que o Samba é. É o que entendo ser o Samba. É deste modo que, penso, ele deve ser compreendido.
Assim como, por exemplo, o Maracatu, o Jongo, o Congado, o Carimbó, o Boi e outras tantas manifestações culturais afrobrasileiras - marcadas profundamente pelo sagrado - é, o Samba, muito mais que musicalidade ou música, essa entidade compreendida, de modo geral, equivocada e muito superficialmente.
O que ocorre em relação à música, no meu entender, é uma compreensão tosca e entorpecida a partir da qual ela só é considerada esvaída da essência que lhe dá, o conjunto dos outros elementos e/ou valores que constituem ao que se denomina cultura, da qual lhe é imposta a separação.
Deste modo, o Samba, nesse processo que se notabiliza por valorizar a folclorização, a estereotipia, a exotização, a pasteurização e a espetaculização, acaba reduzido a gênero musical – meramente entretenimento. Torna-se um produto, uma mercadoria, resultante da produção massificada e ou alternativa destinada a nicho específico – biscoito fino –, num caso; e vulgarizada – bolacha d’água –, noutro. Todavia, o processo é conduzido, sempre, pela indústria cultural.
Parece óbvio que tomada isoladamente, a música (aí, já menos que musicalidade), jamais poderá ser compreendida e apreendida de modo completo. Tratar-se-á, apenas e tão somente, de um ente reduzido e coisificado, apartado daquilo que lhe é complementar: os já supra citados elementos do conjunto de valores denominado cultura, o qual permeia e é por ele permeado, impactando-o e dele sofrendo impacto. Dando-lhe e dele obtendo significado.
A propósito, as ideias constantes neste ensaio norteam-se por noções básicas segundo as quais cultura pode ser designada como:
“ato, efeito de cultivar, desenvolvimento intelectual, saber; estudo, elegância; esmero; conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade”;[ii]
Ou, filosoficamente, “o conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural”;[iii]
Ou; no sentido lato, “o aspecto da vida social que se relaciona com a produção do saber, arte, folclore, mitologia, costumes, etc., bem como à sua perpetuação pela transmissão de uma geração à outra”;[iv]
Ou, sociologicamente, “pode simbolizar tudo o que é apreendido e partilhado pelos indivíduos de um determinado grupo e que confere uma identidade dentro do seu grupo de pertença. Já que para a sociologia não existem culturas superiores e nem inferiores, posto que a mesma é relativa, daí derivando o termo relativismo cultural, segundo o qual a cultura, por exemplo, de um país não é igual à de outro, isto é, diferem nas maneiras de se vestir, e agir, têm crenças, valores e normas diferentes, ou seja, têm padrões culturais distintos”;[v]
Ou ainda, antropologicamente, a cultura pode ser entendida como a totalidade de padrões apreendidos e desenvolvidos pelo ser humano. E, de acordo com definição conceitual primeva sob a etnologia, a cultura seria “o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”;[vi]
Portanto, corresponde, neste último sentido, às formas de organização de um povo, seus costumes e tradições transmitidas de geração para geração que, à partir de uma vivência e tradição comuns, se apresentam como a identidade desse povo.[vii]
Dessas sintetizadas noções do significado de cultura é que advem a idéia de alma e espírito entendidas como sinônimos ou coisas muitíssimo mais que próximas da cultura. Pois se o ser humano é um ser social - vive em grupo -, por conseguinte, todo e qualquer humano é portador de cultura. Toda e qualquer pessoa possue cultura. Já que é fato que todo e qualquer grupo de indivíduos vive, a priore, sob um conjunto de regras de convívio que normatizam seu cotidiano; regem seus hábitos, regulam o seu modo de vida.
Daí a opção pelo entendimento orientado pelas proposições que apontam para uma compreensão da cultura como um ente açambarcador da diversidade, não hierarquizada e, logo, desvencilhada do jugo da indústria e ou evolucionismo culturais.
Deste modo, para o Samba, para a gente do Samba, entendo que deve prevalecer aquilo que se sabe de si, o que se apreendeu e se apreenderá da própria história de vida, da história dos seus em pertença, história do grupo de pertencimento. Em relação às coisas - os valores - dos demais grupos, que não devem ser desconsideradas, devem prevalecer as coisas - os valores - do próprio grupo enquanto centrais. E devem prevalecer, não por valerem mais que aquelas coisas dos demais outros grupos. Mas sim por pertencerem ao seu grupo e, por isso mesmo, não valerem menos.
A proposição aqui é a de que sejam entendidas as expressões culturais: Maracatu, Jongo, Congado, Carimbó, Boi, etcetera, como pertencentes, cada uma delas, a um grupo de indivíduos cujo conjunto de características o diferenciam dos demais. Assim, temos que cada um desses grupos possui uma identidade própria. Identidade que, dentre os diversos elementos que a constitui, possui a música ou musicalidade, ente pelo qual, via de regra, acaba única, exclusiva e equivocadamente conhecida.
Cabe, entretanto, atentar para o fato de que todos esses grupos possuem caracterírsticas que os aproximam, conformando um grupo maior de portadores de característica que os universalizam, a saber: a afrobrasilidade. Posto que refletem, em suas práticas cotidianas, idiossincrasias de matrizes culturais africanas, heranças essas de diversificadas origens em África e que, desterradas pela diáspora, aportaram por aqui (na Terra Brasilis) em lugares e tempos diversos. Já fragmentadas e, às vezes, apenas resquícios.
Todavia, seus portadores submeteram-nas a importantes processos de ressigfinificação, que implicaram em sincretismos entre si, possibilitadores da manutenção das identidades, das histórias, da continuidade – do sentido da vida –, a partir de processo de recriação.
Daí, decerto, decorre um fortíssimo hibridismo entre suas práticas. Mas, importa apontar para a diversidade lá e cá, antes e depois da diáspora. E, como já foi dito, o conjunto de elementos característicos e próprios de cada grupo o diferencia dos demais e, conseqüentemente, faz aproximarem-se os indivíduos que lhe são internos, dando-lhes identidade própria e singular.
Tais elementos implicam o comportamento, os costumes, o jeito de ser, os hábitos, os valores adotados e que marcam e são marcados pelo dia-a-dia, pelo cotidiano. E, é óbvio, tudo isso inexoravelmente se faz refletir na música, na musicalidade, bem como nos demais entes (culinária, ritos sagrados, etc.) que expressam os fazeres do grupo. E os muitos grupos possuem características comuns que os aproximam, constituindo um grupo maior marcado por uma universalidade dada por características gerais. É o caso dos exemplos utilizados.
No Samba, para além da historiografia oficial, há uma grande diversidade. É diverso o povo do samba. É necessário, para uma melhor compreensão, atentar para a instituição, em tempos idos, do fenômeno Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, submetida ao DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, criado à 27/12/1939 e composto por cinco divisões: Divulgação, Turismo, Imprensa, Cinema-Teatro e Rádio, projeto getulista de integração nacional, que impactou contundentemente, com o intuito de controlar e homogeneizar, as culturas do/no território nacional. Meses depois, por meio do decreto-lei n. 2.557, de 04/09/1940, foram instituidos os DEIPs, Departamentos Estaduais de Imprensa e Propaganda, como tentáculos do DIP nos Estados, buscando a cooperação dos então governadores. O DIP fornecia suporte técnico e doutrinário, de modo que os DEIPs fossem expressão do pensamento getulista e o interpretassem para os governos estaduais. [viii]

É dessa intervenção na música que surge o samba-exaltação, cujo ponto de partida é marcado com "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, em um momento que imperantes nos centro urbanos eram o samba e o maxixe, os primeiros capturados, enquanto gêneros musicais, pela indústria cultural. Isso, em um momento em que, suporte do regime pós Revolução de 1930, os populares urbanos já tinham suas expressões musicais veiculadas, desde o fim da década anterior, nas primeiras radios. É então que, intelectuais como integralista Luiz da Câmara Cascudo (e modernistas, inclusive) ligados ao Estado Novo, concluem ser necessária a "depuração" e direcionamento desses “gêneros folclóricos carentes de erudição” a ser dada por compositores como Ary Barroso e Radamés Gnatalli, por exemplo.[ix]

Muito fortemente combatido foi o Samba-Malandro, pois no Estado Novo, a ojeriza ao trabalho, cuja origem devia-se às suas precárias condições na vigência do escravagismo, não podia ser tolerada. Afinal, “as condições de desigualdade se haviam extinguido no novo regime!” E a malandragem tratava-se, então, de um anacronismo histórico não mais tolerável. O DIP decidiu eliminar a figura do malandro e o elogio à malandragem, por duas linhas de ação, a saber: cooptação e rigorosa censura. Só em 1940, 370 músicas e perto de 100 programas de radio foram censurados por conta de seus temas e linguagem utilizada (gírias, vícios de linguagem, etc). E quanto à cooptação dos sambista, é sabido, foi a época na qual destacados boas-vidas dos morros cariocas passaram (por malandragem) a exaltar as vantagens do trabalho e da vida regrada. Icônico exemplo é a samba "Bonde de São Januário" (Ataulfo Alves e Wilson Batista, 1940) que na escrita original seu refrão dizia: "O Bonde São Januário / leva mais um otário / que vai indo trabalhar". E após suposta interferência do DIP, nasceu a versão conhecida: "O Bonde São Januário / leva mais um operário / sou eu que vou trabalhar". Verdade ou não, fato é que "regeneração" de malandro, da exaltação do trabalho e da família, tornou-se tema corriqueiro dos sambas do período.[x]

Contudo, é possível, caso se queira, perceber sob o vel da indústria cultural, a diversidade contida no universo sambístico - do rural ao urbano. Diversidade do povo do samba migrado para o, então, maior e principal centro urbano brasileiro, retirante de localidades e regiões diversas - fluminenses e do território nacional.

Dentre essas localidades e regiões estavam os centros menores. E mesmo em lugares não centrais como, por exemplo, a então provinciana cidade de São Paulo, capital do estado homônimo, também havia Samba, já que havia, parece óbvio, muitos negros. Povo do Samba migrado dos interioranos cafezais, com suas características próprias e uma história quase que só veiculada pela oralidade, documento vital para os da cultura.
Portanto, rumando para a finalização deste, quiçá, meio confuso escrevinhado, pautado pela proposição de um outro jeito de apreender a música - musicalidade -, cabe enfatizar que se for para entender o samba como mero gênero musical, podem ser considerados sambistas, tanto, inclusive, quaisquer indivíduos do sudoeste asiatico, como quaisquer outros, da escandinávia, por exemplo, que cantem, toquem e/ou dancem (ainda que à sua maneira), o samba.
Mas… É preciso que o Samba se conheça; faz-se necessário que saiba mais de si mesmo, das suas coisas para que possa dar continuidade à sua linhagem. Tem a responsabilidade, o Samba, de melhor se conhecer, para se fazer conhecer melhor. Para seguir em frente, garantir o seu futuro, que será vivido e vivenciado pelas gerações futuras de sambistas. Elas que receberão o legado que vem sendo passado com a marca das gerações ancestrais, e no qual terão que colocar a sua marca, e legar para os que continuarão vindo também colocarem a sua. Pois só assim o Samba seguirá mais e mais fortalecido, imortalizado, e tornando os seus, melhores e mais firmes. Melhoria e firmeza a serem expressas por sua música - musicalidade.
Fato é que o Samba, aqui discutido, é muito mais que (e anterior à) arte; é muitíssimo mais que música (de si um recorte). É cultura!
Saudações Sambísticas!
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Selito SD: Sambista, compositor e pesquisador, ex-integrante do Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco, quase Geógrafo pela USP, Integrante do Coletivo Zagaia e do Cordão da Mentira. 



[i] http://projetonossosamba.blogspot.com.br/2007/10/o-samba-nosso-esprito-nossa-alma-nossa.html
[vi] TYLOR, Edward Burnett (1832). “Internet Archive“. Encyclopædia Britannica (XI edição) Volume XXVII. New York: Encyclopædia Britannica. pág. 498. Visitado em 11-02-2011
[viii] Vicente , Eduardo. - A Música Popular Sob o Estado Novo. Versão Revisada doRelatório Final da Pesquisa de Iniciação Científica PIBIC/CNPq, realizado na Universidade de Campinas em Janeiro de 1994. São Paulo, março de 2006, p15.
[viii] Idem, p.18
[ix] Idem, p. 36-38

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Valente (No cais)


Inhaca
no porto
tá morto
o Zaca

Na maca
o torto
bem morto
de faca

Temido
bateu
matou

Ferido
morreu
passou