terça-feira, 26 de agosto de 2014

Té cavaquinho é tambor!



Paletada do cavaco

é toque. Samba rasgado,

de caboclo ou cabula…

Ou congo – congo de ouro.



Marcação também, destaco.

Todo samba é batucado.

Se preciso, olhe a bula

para instrução de calouro:



“Todo batuque é mandinga.

 Té samba gospel é macumba.

 Não adianta careta!



 Tem a síncopa, tem ginga.

 E a curimba retumba

 no percutir da paleta.”



Também em: Zagaia Em Revista

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Novos porcos**


Na mais descarada e tirana ironia

Se vangloria o jornal*: “Matamos poucos!”

E os suínos velhos replicam novos porcos

Que geram novas mortes destes novos dias


E não sumiram marcas fundas, cicatrizes

E ouvirás toda a verdade e ela dói

Pois todo mundo aqui é órfão de um herói

Feito ausente por cães vis, cruéis juízes


Muitas perguntas nos escapam da garganta

Quem torturou? E quem pagou? Quem assistiu?

Quem fez da nossa Pátria Mãe, madrasta vil?


Porque protegem tanta gente sacripanta

Que torturou e que matou e que feriu

Onde é que estão os traidores do Brasil?


[**] Samba que integra o repertório do Cordão da Mentira e que embalou seu primeiro desfile, uma parceria com o meu mano Thiago B. Mendonça.
[*] A Falha de Sampa

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Batalha final d’um bravo brigante



Nos metros a frente a fria coluna

Por entre os escudos eu vejo uma fresta

 E sigo em frente, pois pouco me resta

Sou só uma peça na grande comuna

Reúna seus homens, reúna, reúna...



Novos dias me acenam do lado de lá

Pouco me resta, ja não tenho sono

Já não tenho medo, já não tenho dono

Só tenho a vontade de continuar

Com sangue no rosto e brilho no olhar



Comuna e coluna postadas bem perto

Lá da barricada já fiz o que pude

Com tripa de mico, bolinha de gude

Por entre os escudos achei descoberto

Grosso supercilio que deixei aberto



Montado em exemplo de gente da gente

Não mais me abala a mais cruel cena

Nem mais uma bala fará com qu’eu tema

Seja de borracha, seja chumbo quente…

Por entre os escudos eu miro um temente



Vou partir pra riba, no saci virado

Vou partir na fé de meu santo e meu povo

Se eu cair… Levanto e me atraco de novo

Vou pela quebrada, vou quilombolado

Por entre os escudos… Zumbi do meu lado

Se eu cair… Levanto e me atraco de novo




Esse poema musicado (cuja sonoridade aqui exposta foi captada por Samuel Gambini) integra o repertório do Cordão da Mentira e embalou o desfile deste 2014, resulta do tecer frases gramaticais e melódicas com os parças e comparsas Serginho Poeta e Everaldo Efe Silva. Ô sorte!

O time? Bel Borges, Chico Crozera, Fábio Goulart, Ninão, Renato Fontes, Willian Lopes e Selito SD.

Tempo*

Hoje 

Choro a vaidade ferida 


Os dias passaram e eu fiquei 


Preso no tempo 


E o vento 


Que leva a mocidade 


Traz só maldade 


Os cheiros de outro momento 


Não consola saber 


Que tudo um dia se desfaz 


Hoje sou eu, amanhã será você 


Tudo passa do grão ao pó 


Só queria que não fosse assim tão fugaz 


Só queria que possível fosse ter mais… 


Tempo. 


E eu nele liberto… 



[*] Esse samba (cuja sonoridade aqui exposta foi captada por Samuel Gambini) integra a trilha sonora de Piove, Il Film di Pio, curta-metragem, e de Jovens Infelizes ou Um Homem Que Grita Não É Um Ursao Que Dança, longa metragem, ambos de Thiago B. Mendonça, parça e comparsa nesse musicado poema.


O time? Alex Rocha, Caio Prado, Carlão, Fábio Goulart, Felipe Massaranduba, Maurício Pazz, Maurinho de Jesus, Ninão, Renato Fontes e Selito SD.

Veja também em: http://zagaiaemrevista.com.br/em-breve-no-ar/#sthash.gZJBJfe9.dpuf

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Sangria desatada


Passa a noite e vem o dia

Passa o dia e vem a noite

Segue a saga de agonia

Segue a sina do açoite



Passa o dia e a noite passa

Passa noite e o dia corre

Segue o martírio; a desgraça

Sangue do negro inda escorre



Sangue da gente do samba

Boi, candomblé e congado

Não há conversão que estanque



Sangue da gente que é bamba

Coco, embolada e xaxado

Maracatu, jogo ou funk


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Da lua, do dia… Da noite!

Claro que a lua é bela!

Mas só o é por causa da noite.
Esta é que propicia
a glamorosa beleza  da bola branca.
Escura noite – negra luz que chamam treva.

Claro que a lua é bela!
Mas faz sumir-se ante o dia
mais que branco, transparente,
e que não quer, um, concorrente
a tolher-lhe a luminosa importância.

Claro que a lua é bela!
E sua beleza, rouba-lhe o dia.
E sua beleza, exalta-lhe a noite.
E eu que gosto do dia; que gosto da lua
confesso-me da noite um ferrenho amante – um apaixonado!

Originalmente publicizado em: http://zagaiaemrevista.com.br/da-lua-do-dia-da-noite/#sthash.VS3SKJOQ.dpuf

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Claros e escuros ternos


Vistamos ternos claros, os homens escuros.

Sigamos, pois, na luta rumo a liberdade;

na busca de um sentido pra humanidade.

Quiçá, nos encontremos, num porto, seguros!



Pois, eles, homens claros de ternos escuros

que mandam e desmandam na sociedade;

obrigam-nos reféns de suas vis vontades;

só fazem é meter-nos em grandes apuros!



Então, façamos deste pedaço d'América,

lugar onde o convívio não lembre o inferno;

mudemos de vez essa estrutura tétrica!



Tornemos nosso mundo mais justo e fraterno,

uma comunidade que não seja histérica;

que abrigue aos de claros e d'escuros ternos!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

África – para compreender, um pouco, esse universo*


Fonte da imagem: http://betemoresco8.blogspot.com.br
Este texto, o produzi como trabalho de conclusão do Curso de Difusão Cultural ÁFRICA: SOCIEDADES E CULTURAS, ministrado pelo CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS CEA) da Faculdade de filosofia, Letras e ciências humanas da Universidade de São Paulo, no segundo semestre de 2003. (Selito SD)

Apresentação

Iniciamos dizendo que, como já é sabido, no Brasil padecemos de uma quase que total ignorância em relação à questão ou às questões ligadas à África. Assim sendo, quando decidimos participar do Curso de Extensão Cultural África: Sociedades e Culturas, ministrado pelo Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo - CEA/USP, foi com o intuito, não de preenchermos, mas de iniciarmos o processo de preenchimento desta lacuna de nosso conhecimento em relação ao continente africano.

Passando pelo curso pudemos perceber que a carga horária do mesmo, relacionada com a densidade do conteúdo apresentado, não nos possibilitaria um mergulho profundo, o que nos foi alertado. Todavia, o risco de que a grande quantidade de informações viesse a se tornar meramente um monte de notícias não se efetivou. Pelo contrário, o que houve foi a constituição de um espectro que nos possibilita, agora, termos um melhor olhar, uma melhor compreensão de um universo que a nós sempre foi apresentado superficialmente, de forma simplificada, homogênea e preconceituosa.

(...)

A África no contexto historiográfico

Para o desenvolvimento deste ensaio, optamos por constituir um texto a partir do fichamento da leitura de alguns capítulos da obra História Geral da África I – Metodologia e Pré-história da África (Unesco), mesclados com algumas anotações de aula, o que resultou no que segue.

Como já foi mencionado acima, em relação à África, os mitos e preconceitos de toda espécie cumpriram, e de um modo um tanto eficaz, o papel de ocultar ao mundo sua verdadeira história. De acordo com M’BOW (1982), a prisão a certos postulados por parte de estudiosos não-africanos impedia que as sociedades de África merecessem um estudo científico de fato. Alegava-se a falta de documentação escrita. A tradição oral, memória coletiva dos povos de África, que apresenta uma imbricada rede de episódios de suma relevância em suas vidas, foi incessantemente tratada com intenso desdém, como inútil. E isto, mesmo sendo a iIlíada e a Odisséia racionalmente consideradas essenciais fontes históricas da antiga civilização grega. Este posicionamento era de tal monta que, em se tratando dos modos de produção, das relações sociais e das instituições políticas, tudo era analisado tendo como referência a Idade Média européia. O que, convenhamos, não foi que de mais brilhante se deu na história da humanidade.

O continente africano, deste modo, não era visto como uma entidade constituída de história. Insistia-se na idéia de uma remotíssima cisão entre uma “África Branca” e uma “África Negra” que se ignoravam, e apresentava-se um Saara impermeável e inibidor de qualquer miscigenação entre etnias e os povos – uma ideologia branca e eurocêntrica.

Atualmente já se pode dizer que é amplamente reconhecido que por meio de uma vasta quantidade de culturas e línguas as civilizações do continente africano constituem as vertentes históricas de um conjunto de povos e sociedades unidas por laços seculares. Outrossim, não podemos esquecer o quão nefasto foi o aparecimento, a partir do tráfico negreiro e da colonização, de estereótipos raciais fomentadores de desprezo e incompreensão, falseadores dos próprios conceitos de historiografia. Teve, o africano, que lutar contra a servidão humana e a psicológica, transformado que foi em uma mercadoria e destinado ao trabalho forçado. Marcado pela pigmentação de sua pele, passa a simbolizar para o branco dominador, essencialmente, uma raça imaginária e inferior – a de negro. A história, então etno-história, deforma as realidades históricas e culturais de África.

A partir da Segunda Guerra Mundial e dos processos de independência ocorreram modificações significativas. Muitos historiadores passam a empenharem-se numa abordagem mais rigorosa dos estudos relacionados a áfrica, com objetividade e imparcialidade, fazendo uso de fonte originais, com a acuidade devida a um trabalho científico.

Para estudar a África...

Segundo J. Ki-zerbo (1982), a África tem uma história, e está longe o tempo em que o conhecimento dos sábios resumia-se à frase álibi: “Aí existem leões”. Posteriormente, descobriram as minas e as “tribos indígenas”, suas proprietárias, e incorporaram-nas como propriedades das nações colonizadoras. Mais tarde, os povos se insurgem contra a opressão batendo, de modo febril, os pulsos ritmados pelas lutas libertárias. Trata-se da história de uma conscientização a ser reescrita em virtude do mascaramento, da camuflagem, da desfiguração e mutilação sofridas, motivadas pelas circunstâncias, ou seja, ignorância e interesse. Os vários séculos de opressão fixaram sua imagem em um cenário de miséria, barbárie, irresponsabilidade e caos, e isso passou a justificar o presente e o futuro. Faz-se necessário ressuscitar imagens “esquecidas” ou perdidas; um retorno a ciência a fim de se possibilitar uma conscientização com autenticidade; reconstruir o verdadeiro cenário; modificar o discurso.

Por que e como?

Esta necessidade é devida ao fato de a história de África ser pouco conhecida, ter muitas genealogias mal feitas, estruturas mal esboçadas e seqüências absurdas. Tal contexto legitima o lugar secundário dedicado à história africana em relação às demais histórias da humanidade. Também é fato que o quadro vem se modificando e já há muitos pesquisadores de méritos incontestáveis envolvendo-se com a questão africana.

No entanto, cabe ressaltar que quanto à metodologia a se aplicar há uma problemática. Há que se ter o cuidado de não caminhar rumo a uma singularização, bem como rumo a um demasiado alinhamento às normas estrangeiras – eurocêntricas.

As fontes: Escrita, Arqueologia, Tradição (Linguística e Antropológica)**

As fontes são difíceis de acessar e três são as principais e constituem os pilares do conhecimento histórico: os documentos escritos, a arqueologia e a tradição. Estas apoiadas na Lingüística e na Arqueologia. Não se deve, porém, estabelecer uma hierarquia definitiva entre estas fontes, o que seria um erro.

As fontes escritas, além de raras, encontram-se mal distribuídas espacial e temporalmente. Os períodos de maior obscuridade na história africana são aqueles que não se beneficiam dos testemunhos escritos e que remetem aos séculos que interpolam o nascimento de Cristo (excetuando a áfrica do norte). E mesmo quando há esse testemunho a interpretação pede uma sensível meticulosidade. Quantitativamente, um considerável número de materiais arquivístico ou narrativos escritos permanecem inexplorados em acervos públicos (Marrocos, Argélia, Europa...) e ou particulares (eruditos sudaneses, Niger). E além da UNESCO ter estabelecido o Centro Ahmed Baba para coleta de documentos em Tombuctu, há arquivos no Irã, No Iraque, na Armênia, na Índia, na China e nas Américas a espera de pesquisadores.

A Arqueologia revela os testemunhos mudos que em geral são muito mais eloqüentes que os oficiais das crônicas de certos autores. São prestigiosas descobertas e valiosas contribuições, sobretudo, quando da falta de crônicas orais e escritas (como é o caso de milhões de anos do passado de África). São objetos-testemunhos enterrados com aqueles a quem testemunham e velam; são objetos significativos que indicam medidas de civilização quanto a estilos de vida, técnicas e tecnologias, arte, etc. a linguagem destes achados possui algo de objetivo e irecusável devidos à sua própria natureza.

A tradição oral assim como a escrita e a arqueologia é repositório e vetor de criações socioculturais acumuladas pelos povos tidos e ditos sem escrita, ou seja, um museu vivo. São, os mais velhos, ancestrais em potencial, os guardiães do frágil fio de Ariadne constituído pela história falada e que reconstituem os corredores obscuros do labirinto do tempo, com seus cabelos brancos, vozes cansadas e memórias um pouco obscuras. São derradeiras ilhotas de uma paisagem que perdeu a imponência, mas que tem seus elementos ligados por uma precisa ordem que ora faz se apresentar erodida, devastada pelo modernismo. Na medida em que um deles deixa de existir, uma fibra do fio de Ariadne se rompe e um fragmento na paisagem constituinte da história torna-se subterrâneo. Ao contrário da escrita que disseca, decanta e petrifica, a tradição reveste de carne e de cores, irrigando de sangue e vida o esqueleto do passado.

Muitos são os obstáculos a se ultrapassar para se peneirar com critério o material da tradição oral separando os das palavras-armadilha. Para o africano a palavra é pesada, é fortemente ambígua, pode fazer e desfazer, pode acarretar malefícios e, por isto, sua articulação não se dá de modo aberto e direto. Ela pode não se fazer clara para as pessoas comuns, mas luminosa para aquelas munidas das antenas da sabedoria. A tradição oral é estruturada e sustentada pela musica, o que faz com que tipos de musica, cantos e instrumentos constituam um mundo meticulosamente regulado. Assim, cada gênero literário oral possui um instrumento específico em cada região cultural. Tal é a integração da musica com a tradição que algumas narrativas só se transmitem cantadas. Em suma, a tradição oral é uma fonte integral, cuja a metodologia bem estabelecida confere à história do continente africano uma notabilíssima originalidade.

A lingüística está para a história da África, não como uma disciplina auxiliar, mas como uma disciplina autônoma e que vai ao cerne de seu objeto... Muito há que se fazer nesta área, iniciando pela catalogação científica das línguas. Só por meio de uma meticulosa e laboriosa análise de fato lingüística é que se pode fazer extrapolações retroativas, o que é dificultado pela não existência de um conhecimento histórico aprofundado destas línguas. Daí a compreensão dos duelos de erudição em algumas áreas, particularmente em relação à língua bantu. Para Malcolm Guthrie, p. e., vale a teoria da autogênese, ao passo que para Joseph Greenberg, as línguas bantu devem ser postas num contexto continental mais amplo, em virtude de as semelhanças existentes não significarem analogias acidentais e exógenas, mas originarem-se de um parentesco endógeno, expresso em centenas de línguas pelas similitudes dos pronomes, do vocabulário básico e aspectos gramaticais, como o sistema de classes nominais.

Os estudos lingüísticos mostram as rotas e os caminhos das migrações, bem como a difusão de culturas materiais e espirituais marcadas, pois pela distribuição de palavras aparentadas. Portanto, faz-se importante uma análise diacrônica e da glotocronologia se o que se almeja é compreender o dinamismo e o sentido da evolução. É necessário um estudo sistemático dos topônimos e dos antropônimos sob uma abordagem endógena, uma vez que um considerável número de nomes foi deformado pela redação ou pronúncia exóticas de não-africanos ou de africanos atuando como escribas ou intérpretes. Mesmo tendo em muito colaborado com a história da África, a lingüística deve se apartar do desprezo etnocentrista que marcou os trabalhos de A. W. Schlegel e A. Schleicher para os quais as línguas da família indu-européia estariam no topo da evolução enquanto que as línguas dos negros estariam próximas ao estado original da linguagem, sem gramática, com um discurso marcado por seqüências monossilábicas e de léxico elementar.

A Antropologia igualmente deve se valer dos pressupostos e considerações já apresentados em tópicos anteriores. Ele deve criticar ao seu próprio procedimento e insistir tanto nas normas quanto nas práticas e não confundir as relações sociais, passíveis, estas, de serem decifradas pelas experiências e as estruturas que a sustentam.

As fontes de história da África mencionadas não podem ser classificadas de acordo com uma escala de valores que venha a privilegiar qualquer uma delas em detrimento das outras. Caberá avaliar caso por caso no desenvolver de um estudo, ressaltando que não se trata de testemunho de tipos radicalmente diferentes, portanto, todas dizendo respeito à definições de signos advindos do passado e que em sendo veículos de mensagens não possuem neutralidade, mas intenções francas ou ocultas, demandando crítica metodológica. Por fim, cada uma das categorias, cada uma das fontes pode conduzir o pesquisador às demais, p. e., a tradição oral pode levar a depósitos arqueológicos e mesmo auxiliar a decifrar documentos escritos.

Princípios norteadores para um estudo conseqüente

São quatro os grandes princípios que devem nortear a pesquisa, se de fato se almeja implementar um trabalho contundente sobre a África:

A interdisciplinaridade, de importância tal que, por si só, quase que constitui uma fonte específica. Por exemplo, a expansão dos Bantu, atestada pela lingüística, tradição oral, arqueologia e antropologia, além de fontes escritas árabes, portuguesas, inglesas e africânderes, torna-se uma palpável realidade susceptível de uma sintética ordenação cujas arestas mostram-se de forma mais nítida na convergência destes diferentes planos. Outrossim, os argumentos lingüísticos unem-se aos da tecnologia sugerindo uma difusão de gongos reis e sinos cerimoniais geminados a partir da África ocidental rumoao baixo Zaire, ao Shaba e à Zâmbia. Contudo, as provas arqueológicas trouxeram, de modo evidente, uma inestimável confirmação para tal fato;

A história vista do interior, a partir do pólo africano e não mensurada eternamente por valores estrangeiros é outra exigência imperativa. É necessária uma consciência de si mesmo e o direito à diferença como pré-requisitos insubstituíveis à constituição de uma personalidade coletiva autônoma. Isto não significa que tenha que ser abolida as conexões históricas da África com os demais continentes do velho e do novo mundo. Entretanto, tais conexões devem ser analisadas no sentido da necessidade de os intercâmbios serem recíprocos de influências multilaterais, e cujas contribuições positivas do continente africano para o desenvolvimento da humanidade não deixem de aparecer;

A história dos povos africanos em seu conjunto, ou seja, a totalidade da massa continental mais as ilhas que a complementam, a exemplo de Madagascar, segundo a definição da carta da OUA – Organização da Unidade Africana. Lembrando que a história do continente africano engloba o mediterrâneo numa unidade sedimentada por laços milenares, por vezes sangrentos, mas no geral, propiciadores de enriquecimento mútuo. Este é também um princípio obrigatório, pois na África mesmo o despotismo de algumas dinastias rendem-se à distância, à falta de meios técnicos que os intensifiquem e pela perenidade das democracias aldeãs. Da base ao topo, o conselho reunido pela e para a discussão é que constitui o cérebro do corpo político – uma história dos povos;

Deve-se evitar uma história excessivamente fatual, para que não sejam destacadas em demasia as influências e os fatores de fora do continente. É claro que é primordial que se estabeleça fatores chaves que possibilitem a definição do perfil original da evolução da África. Entretanto, merecerão especial interesse as civilizações, as instituições, as estruturas: técnicas e tecnologias, artes e artesanatos, rotas comerciais, concepção e organização do poder, visão de mundo, modo de pensar, religião, filosofa, técnicas de modernização, o problema das nações e das pré-nações, etc. tal opção requer inexoravelmente uma abordagem interdisciplinar.

Considerações

Para mergulhar no universo africano de modo a, realmente, poder absorver, apreender e, assim, compreender as questões que o permeiam, entendemos, após havermos tido a oportunidade de participar do curso África: Sociedades e Culturas, ser necessária a capacidade de abrir a mente e desvencilhá-la de praticamente tudo o que de um modo geral nos foi passado, ensinado e informado a respeito do continente africano, a partir de uma visão contaminada, preconceituosa, galgada em valores demasiadamente eurocêntricos.

É preciso que percebamos que não são somente os europeus que possuem valores civilizatórios. Que não cabe desperdiçarmos tempo e trabalho especulando sobre quais valores são melhores ou piores, quais são os mais ou menos evoluídos. Esses valores advêm de diferentes povos, de diferentes sociedades, de diferentes culturas e é exatamente destas diferenças que se desprende a maior riqueza e constituem o Valor, o bem maior da espécie humana – da humanidade.

Faz-se necessário, pois que tratemos de dar conta da demanda existente por um pesquisar, descobrir, um entender, um esclarecer, um fornecer elementos para constituir no imaginário coletivo um continente africano, uma África que seja vista por uma ótica que não seja mítica, mística e que seja, sim, destituída de qualquer tipo de preconceito que possa fazer com que se oculte ao mundo uma verdadeira história da África.

Deste modo, acreditamos que aquele pesquisador que se predispuser a se enveredar no estudo do continente africano terá a possibilidade da descoberta, não somente de um grande número de sociedades e culturas, mas de que estas poderão apresentar uma gama imensamente diversa de valores, contudo amarrados por um fio de convergência. Poderão apresentar, ao que nos parece, ao que se nos prenuncia, um outro jeito de perceber, pensar e interpretar e interagir com o meio. Um outro modo de vida, uma outra filosofia.

Bibliografia

KI-ZERBO, J. (Coord.) – História Geral da África. I Metodologia e Pré-história, UNESCO, 1982.

Anotaçoes de aula

LEITE, F. – Valores Civilizatórios em Sociedades Negro-Africanas. CEA/USP.

PETTER, M, M. T. – Questões Lingüísticas na África. DL/FFLCH/USP.

SERRANO, C. – Uma Nova Visão da África.Justificar

[*] Publicação original: http://selito-sd.blogspot.com.br/2010/01/africa-compreendendo-um-pouco-esse.html
[**] Fazemos, aqui, uma mui breve menção sobre tais fontes, somente com o intuito de apresentá-las.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Uma noite qualquer de um qualquer dia



Numa noite qualquer de um qualquer dia

a caminho de casa após a escola

o, em sonho, um futuro rei da bola

fez juntar-se aos seus na padaria



Mas dos jovens a farra a gritaria

que nem era assim tanta, enfim, amola

ao gerente que lhes quer a degola

num mesclar de recalque e biltraria



Pra atender ao chamado, as criaturas

quase não demoraram nem minuto

em suas tão sinistras viaturas



E o silêncio se fez absoluto

No ambiente nervosas contraturas

E o amanhã de umas mães se fez de luto!


segunda-feira, 21 de julho de 2014

O samba é alma, espírito... Cultura!

Projeto Nosso Samba. Festa de 8 anos. Foto - PNS 2008
"Somos nós, os nossos, não somos eles,  os outros. Caminharemos mais e melhor a partir de nossa própria história. Não se trata, definitivamente, de negar e nem desrespeitar a história do outro."  

por Selito SD

Alma, é isso que o Samba é. É o que entendo ser o Samba. É deste modo que, penso, ele deve ser compreendido. 

Assim como, por exemplo, o Maracatu, o Jongo, o Congado, o Carimbó, o Boi e outras tantas manifestações culturais afrobrasileiras - marcadas profundamente pelo sagrado - é, o Samba, muito mais que musicalidade ou música, essa entidade compreendida, de modo geral, equivocada e muito superficialmente. 

O que ocorre em relação à música é uma compreensão tosca e entorpecida a partir da qual ela só é considerada esvaída da essência que lhe dá, o conjunto dos outros elementos e/ou valores que constituem ao que se denomina cultura, da qual lhe é imposta a separação. 

Deste modo, o Samba, nesse processo que se notabiliza por valorizar a folclorização, a estereotipia, a exotização, a pasteurização e a espetaculização, acaba reduzido a gênero musical – meramente entretenimento. Torna-se um produto, uma mercadoria, resultante da produção massificada e ou alternativa destinada a nicho específico – biscoito fino –, num caso; e vulgarizada – bolacha d’água, sem sal –, noutro. Todavia, o processo é conduzido, sempre, pela indústria cultural.

Parece óbvio que tomada isoladamente, a música (aí, já menos que musicalidade), jamais poderá ser compreendida e apreendida de modo completo. Tratar-se-á, apenas e tão somente, de um ente reduzido e coisificado, apartado daquilo que lhe é complementar: os já supra citados elementos do conjunto de valores denominado cultura, o qual permeia e é por ele permeado, impactando-o e dele sofrendo impacto. Dando-lhe e dele obtendo significado.

A propósito, as ideias constantes neste ensaio norteam-se por noções básicas segundo as quais cultura pode ser designada como: 
  • “ato, efeito de cultivar, desenvolvimento intelectual, saber; estudo, elegância; esmero; conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade”;
  • Ou, filosoficamente, “o conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural”;
  • Ou; no sentido lato, “o aspecto da vida social que se relaciona com a produção do saber, arte, folclore, mitologia, costumes, etc., bem como à sua perpetuação pela transmissão de uma geração à outra”;
  • Ou, sociologicamente, “pode simbolizar tudo o que é apreendido e partilhado pelos indivíduos de um determinado grupo e que confere uma identidade dentro do seu grupo de pertença. Já que para a sociologia não existem culturas superiores e nem inferiores, posto que a mesma é relativa, daí derivando o termo relativismo cultural, segundo o qual a cultura, por exemplo, de um país não é igual à de outro, isto é, diferem nas maneiras de se vestir, e agir, têm crenças, valores e normas diferentes, ou seja, têm padrões culturais distintos”;
  • Ou ainda, antropologicamente, a cultura pode ser entendida como a totalidade de padrões apreendidos e desenvolvidos pelo ser humano. E, de acordo com definição conceitual primeva sob a etnologia, a cultura seria “o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.

Portanto, corresponde, neste último sentido, às formas de organização de um povo, seus costumes e tradições transmitidas de geração para geração que, à partir de uma vivência e tradição comuns, se apresentam como a identidade desse povo.

Portanto, corresponde, neste último sentido, às formas de organização de um povo, seus costumes e tradições transmitidas de geração para geração que, à partir de uma vivência e tradição comuns, se apresentam como a identidade desse povo.

Dessas sintetizadas noções do significado de cultura é que advem a idéia de alma e espírito entendidas como sinônimos ou coisas muitíssimo mais que próximas da cultura. Pois se o ser humano é um ser social - vive em grupo -, por conseguinte, todo e qualquer humano é portador de cultura. Toda e qualquer pessoa possue cultura. Já que é fato que todo e qualquer grupo de indivíduos vive, a priore, sob um conjunto de regras de convívio que normatizam seu cotidiano; regem seus hábitos, regulam o seu modo de vida.

Daí a opção pelo entendimento orientado por aquelas proposições que apontam para uma compreensão da cultura como um ente açambarcador da diversidade, não hierarquizada e, logo, desvencilhada do jugo da indústria e ou evolucionismo culturais.

Deste modo, entendo que para o Samba, para a gente do Samba, deve prevalecer aquilo que se sabe de si, o que se apreendeu e se apreenderá da própria história de vida, da história dos seus em pertença, história do grupo de pertencimento. Em relação às coisas - os valores - dos demais grupos, que não devem ser desconsideradas, devem prevalecer as coisas - os valores - do próprio grupo enquanto centrais. E devem prevalecer, não por valerem mais que aquelas coisas dos demais outros grupos. Mas sim por pertencerem ao seu grupo e, por isso mesmo, não valer menos.

A proposição aqui é a de que sejam entendidas as expressões culturais: Maracatu, Jongo, Congado, Carimbó, Boi, etcetera, como pertencentes, cada uma delas, a um grupo de indivíduos cujo conjunto de características o diferenciam dos demais. Assim, temos que cada um desses grupos possui uma identidade própria. Identidade que, dentre os diversos elementos que a constitui, possui a música ou musicalidade, ente pelo qual, via de regra, acaba única, exclusiva e equivocadamente conhecida.

Cabe, entretanto, atentar para o fato de que todos esses grupos possuem caracterírsticas que os aproximam, conformando um grupo maior de portadores de característica que os universalizam, a saber: a afrobrasilidade. Posto que refletem, em suas práticas cotidianas, idiossincrasias de matrizes culturais africanas, heranças essas de diversificadas origens em África e que, desterradas pela diáspora, aportaram por aqui (na Terra Brasilis) em lugares e tempos diversos. Já fragmentadas e, às vezes, apenas resquícios.

Todavia, seus portadores submeteram-nas a importantes processos de ressignificação, que implicaram em sincretismos entre si, possibilitadores da manutenção das identidades, das histórias, da continuidade – do sentido da vida –, a partir de processo de recriação.

Daí, decerto, decorre um fortíssimo hibridismo entre suas práticas. Mas, importa apontar para a diversidade lá e cá, antes e depois da diáspora. E, como já foi dito, o conjunto de elementos característicos e próprios de cada grupo o diferencia dos demais e, conseqüentemente, faz aproximarem-se os indivíduos que lhe são internos, dando-lhes identidade própria e singular.

Tais elementos implicam o comportamento, os costumes, o jeito de ser, os hábitos, os valores adotados e que marcam e são marcados pelo dia-a-dia, pelo cotidiano. E, é óbvio, tudo isso inexoravelmente se faz refletir na música, na musicalidade, bem como nos demais entes (culinária, ritos sagrados, etcetera) que expressam os fazeres do grupo. E muitos grupos possuem características comuns que os aproximam, constituindo um grupo maior marcado por uma universalidade dada por características gerais. É o caso dos exemplos utilizados.

No Samba, para além da historiografia oficial, há uma grande diversidade. É diverso o povo do samba. Ainda que em tempos idos o fenômeno Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, projeto getulista de integração nacional, tenha impactado contundentemente, com o intuito de homogeneizar, as culturas do/no território nacional, é possível perceber (caso se queira) a diversidade contida no universo sambístico - do rural ao urbano.

Diversidade do povo do samba que migrou para o, então, grande e principal centro urbano brasileiro, retirante de localidades e regiões diversas - fluminenses e do território nacional.

Dentre essas localidades e regiões estavam os centros menores. E mesmo em lugares não centrais como, por exemplo, a então provinciana cidade de São Paulo, capital do estado homônimo, também havia Samba, já que havia, parece óbvio, muitos negros. Povo do Samba migrado dos interioranos cafezais, com suas características próprias e uma história quase que só veiculada pela oralidade, documento vital para os da cultura.

Portanto, rumando para a finalização deste, quiçá, meio confuso escrevinhado, pautado por um outro jeito de apreender a música - musicalidade -, cabe enfatizar que se for para entender o samba como mero gênero musical, podem ser considerados sambistas, tanto, inclusive, quaisquer indivíduos do sudoeste asiático, como quaisquer outros da escandinávia, por exemplo, que cantem, toquem e/ou dancem (ainda que à sua maneira), o samba.

Mas… É preciso que o Samba se conheça; faz-se necessário que saiba mais de si mesmo, das suas coisas para que possa dar continuidade à sua linhagem. Tem a responsabilidade, o Samba, de melhor se conhecer, para se fazer conhecer melhor. Para seguir em frente, garantir o seu futuro, que será vivido e vivenciado pelas gerações futuras de sambistas. Elas que receberão o legado que vem sendo passado com a marca das gerações ancestrais, e no qual terão que colocar a sua marca para os que continuarão vindo. Pois só assim o Samba seguirá mais e mais fortalecido e tornando os seus, melhores e mais firmes. Melhoria e firmeza a serem expressas também por sua música - musicalidade.

Fato é que o Samba é muito mais que arte; é muitíssimo mais que música. É cultura!

Saudações Sambísticas!
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Selito SD: Sambista, compositor e pesquisador, integrante do Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco, um quase Geógrafo pela USP, Integrante do Coletivo Zagaia e do Cordão da Mentira.